segunda-feira, 31 de agosto de 2015

TRAVESSIA PICO PARANÁ (01-02/08/2015)

 Ascensão ao Pico Paraná via face leste do Ibitirati com quase 2mil metros de desnível.

Sábado as 05h eu e o Elcio partíamos buscar o Jurandir que havia vindo de Paranaguá para encarar a travessia. Ao chegar no hotel em que ele estava hospedado descobrimos que havia virado a noite na balada, ia encarar a travessia sem ter dormido.
Partindo em direção ao Bairro Alto – Antonina via Estrada da Graciosa logo nos deparávamos com uma visão espetacular do Conjunto Marumby, uma Lua Cheia enorme sobre ele, perdemos vários minutos fotografando aquele visual. Prosseguindo viagem mais algumas paradas, a cada km rodado mais visual espetacular, quando não era o Marumby com sua Lua era o visual do nosso destino, isso sem contar que os Agudos (Cotia e Cia) e o Velho Ranzinza (Ciririca) também dava o ar da graça.



Lua Cheia sobre o Marumby

Ciririca ao Agudo da Cotia

Pico Paraná (esquerda) e a crista da face Leste do Ibitirati.

Chegando na Fazenda Lírio do Vale, verificamos e conferimos todos os apetrechos e logo partíamos encarar o Jacutinga (1100m), saindo a exatamente 08:00h.


Elcio e Jurandir na barragem no final dos duto da trilha.

Saímos da estrada da fazenda e seguimos a trilha que nos levaria ao nosso primeiro objetivo, de início seguindo alguns dutos, até então trilha tranquila, porem ela se mostra um pouco complexa, quase não possui marcação e várias roubadas ao longo do percurso. O calor e o pouco ar circulando entre a vegetação dificultava também a nossa, mas essa dificuldade era recompensada com o visual de algumas montanhas, principalmente do Ferraria e do nosso destino, a face leste do PP, este visto pouco antes do cume do Jacutinga, após algumas seções de fotos iriamos ao descanso merecido no cume.

 Pico Paraná e face Leste do Ibitirati visto do Jacutinga.

No final das contas, o merecido descanso no Jacutinga havia se tornado um verdadeiro ataque de quati, com o calor que fazia estando em um cume sombreado a vontade que dava era de ficar por ali mesmo. Em outras investidas passando por esse morro já haviam alertado sobre o aconchego do lugar, tanto que mencionaram que o nome desta montanha deveria ser Quati, Preguiça e não Jacutinga, tudo isso devido ao estado dos montanhistas ficam ao chegar ali.
Após um descanso merecido e como tínhamos um objetivo maior demos um chega para lá nos quatis e tocávamos em direção ao Ibitirati.
Traçamos a rota e nos enfiávamos nas quiçaças que já era previsto, em alguns pontos mais estratégico íamos marcando o caminho com fita, pois a ideia inicial era voltar pelo mesmo caminho. Entre quiçaças e algumas pirambeira a preocupação agora era encontrar água, prevíamos que no vale entre as duas montanhas encontraríamos algum rio, mas até lá teria chão para percorrer.
Íamos revezando a dianteira do percurso, assim evitaríamos cansaço extremo de ir uma única pessoa a frente. Mais algum tempo depois chegaríamos no colo entre o Jacutinga e o Conjunto do Pico Paraná e em seguida encontraríamos um filete de água suficiente para nos reabastecer e seguir o percurso até chegar ao rio e iniciar a subida do Ibitirati.

Colo entre o Jacutinga e Ibitirati.

A subida pela face leste do Ibitirati se deu bastante complexa, em certos trechos a inclinação era tanto que quase usávamos as unhas para vencer a pirambeira, e foi assim até o cair da noite e nestas horas como seria improvável encontrar algum lugar plano para bivacar resolvemos nos aconchegar ao lado de umas árvores no paredão mesmo. A inclinação do local passava dos 50° , assim batizamos o local de bivac cabide, pois dormiríamos praticamente pendurado.



Bivac Cabide (detalhe na rede feito de saco de açúcar)

Na tentativa de conseguir ficar confortável passei a corda entre as árvores e joguei a mochila por baixo do isolante ficando elevado as pernas na hora de dormir, Elcio se acomodou como pode em um canto e o Jurandir, este sem comentário, puxou um saco de açúcar e comentou que iria fazer uma rede de dormir. Na hora caímos na risada, falamos que iria se arrebentar e descer rolando toda a pirambeira abaixo. No fim das contas quem riu por último foi ele, não é que a ideia da rede funcionou. Funcionou tão bem que foi o único que realmente conseguiu dormir bem naquela interminável noite, não só por não estar dormindo inclinado como pelo fato de não ter dormindo a noite anterior quando virou a madrugada na balada.

Jacutinga visto do Bivac Cabide

A noite se mostrava com um visual incrível, a Lua totalmente vermelha e o céu completamente estrelado, durante a longa noite eram possíveis avistar algumas estrelas cadentes. O amanhecer também foi surpreendente e logo estaríamos em pé para continuar a longa jornada.
A pernada não continuava nada fácil, o pior de tudo, é que nos primeiros 10m de caminhada encontraríamos lugar plaino que seria perfeito para pernoitar, mas como adivinhar que acharíamos aquele lugar um dia antes.
O calor começava a nos castigar e o consumo de água aumentar, o problema agora seria encontrar mais água, nesta altura estávamos racionando o que tínhamos. Após um período de caminhada chegaríamos a parede 70, (nome recebido devido as marcas gravada na rocha) próximo a ele escorria uma água boa, porem escorria bem em uma pirambeira que dificultava muito para captar, até para passar por ele devia tomar certo cuidado, pois um deslize iria rolar praticamente no colo do Jacutinga. Como a dificuldade não compensava o risco, passamos batido pela água caminhando rente a parede até que em certa altura demos de cara com um penhasco, a ideia era então voltar alguns metros e tentar contornar por baixo, porem Jurandir achou uma saída escalando uma pirambeira. Neste trecho o agarra mato não era nada confiável, principalmente devido ao desgaste da primeira escalada, o jeito foi   passar a corda ao Jurandir para que ancorasse a corda em uma árvore para que pudéssemos subir.


Parede 70

Vencido esta parede restava tocar a diante, o tempo todo a vegetação castigava nós, não podíamos elogiar um único momento que o caminho estava bom que em seguida piorava. Quando achávamos que não iria piorar vinha o pior, estávamos completamente sem água e única garantia que tínhamos de nos abastecer era o A2, mas até chegar neste ponto teríamos muito chão.
A vontade de completar a missão falava mais alto, quando menos percebíamos estávamos em um platô com visual espetacular e o cansaço e a sede eram facilmente esquecidos.



Reta final na subida ao Ibitirati

Depois de um breve intervalo para repor as energias continuávamos a pernada rumo ao Ibitirati, agora não faltava muito, porem esta etapa final se mostrava impiedoso, vegetação ruim que bloqueava a nossa passagem de cima em baixo, quiçaça que iria persistir até o final da trilha, alivio mesmo foi quando deparamos com a trilha do Ibitirati, agora era só seguir aquela avenida sem dificuldade.
Com a trilha sem obstáculos logo vencíamos o Pico União e rapidamente chegaríamos ao Pico Paraná, finalmente concluído a travessia. Deixamos o registro no que sobrou do livro e tocávamos ao A2 nos reabastecer com água. Chegando lá quase secamos a fonte de tantos que bebemos daquele néctar da montanha.


Cume do Pico Paraná

Fazendo breve descanso notaríamos o descaso com a montanha, muito lixo e papel higiênico jogado em todas as partes, desde o cume do PP até o A2. Enquanto Elcio fazia algumas ligações para tratar do resgate da tripp Jurandir retirava o que podia do lixo, atitude que acredito que foi agradecido pela montanha, pois ele neste ato achava um fogareiro novo, praticamente zerado e de quebra com carga completa.
Com a boa notícia do Elcio que seu irmão iria nos resgatar no posto do Tio Doca caminhávamos agora de forma mais tranquila apesar da exaustão das quiçaças enfrentadas anteriormente.
 Chegando próximo ao A1 identificávamos dois possíveis farofeiros, estando de frente a eles isto se confirmaria, dois indivíduos achando que estava na época de São João, arrancavam vegetação nativa, principalmente caratuvas e preparavam uma fogueira enorme.
Mesmo sendo alertado, orientado de que aquilo não poderia se fazer com tom irônico veio a teimosia que aquela região não pertencia ao Parque Estadual do Pico Paraná e muitos outros bla bla bla, o que nos restou foi engrossar o tom da conversa. Não sabemos se de fato resolveu, porem até onde víamos não teve sinal de luz de fogueira nem fumaça ao longo do trajeto.
O final da trilha era percorrido rapidamente, logo chegaríamos aos campos do Getúlio e não demoraria muito estávamos cruzando a fazenda Pico Paraná a exatamente 20:00h. Só nós restávamos agora vencer a estrada até o resgate, durante a caminhada logo os dois tomavam a dianteira e sumiam na escuridão, só sabia que não estavam muito longe pelo latido dos cachorros nas casas da região.
Entre uma curva e outra na penumbra da estrada avistava a dupla em um bar repondo as energias com uma água da serra sabor abacaxi, o jeito era se chegar também e saciar a sede.
Não demoramos muito no bar e seguimos o trajeto a todo vapor, aquele refrigerante havia nos entorpecido de açúcar e dado uma energia extra para continuar a pernada até a reta final.
Durante o percurso na estrada víamos a Lua iluminar algumas montanhas ao fundo, visão perfeita para o termino da travessia, tão animador quanto isso foi avistar a rodovia e o posto do Tio Doca, agora era só cruzar a passarela e ir de encontro ao nosso resgate pelo nosso grande amigo Elton Neide.
Com a travessia concluída no total de 23km percorrido agora íamos embora para o merecido descanso, porém ainda com algum trabalho para o próximo dia, Jurandir ainda teria que voltar embora a Paranaguá, iria pegar carona com o Élcio, pois ele ainda voltaria a resgatar o carro que havia ficado estacionado na Fazenda no Bairro Alto – Antonina.







 Percurso da Travessia Pico Paraná



Texto: Raffael Galápagos
Fotos: Elcio Douglas / Raffael Galápagos









sexta-feira, 26 de junho de 2015

TRAVESSIA CIRIRICA/GRACIOSA (1ª INTERAGUDOS) (04/06/2015)

Com as passagens de ônibus comprada antecipadamente era grande a expectativa para a realização da travessia no feriadão de Corpus Christi. O dia havia amanhecido com nevoeiro denso, de início fiquei com pé atrás, será que ia melar a brincadeira? Segundo o Elcio era sinal de que o tempo estaria perfeito, a tendência era ela se dispersar e limpar completamente o tempo.
Embarcando no bus na rodoviária as 07:15h ele rapidamente chegava a entrada após o posto do Tulio na BR116 as 08:00h, início da aventura. Não demorando muito após o início da caminhada, conseguimos carona com o tiozinho da fazenda do Bolinha que passava pela estrada, carona bem-vinda já que teríamos uma longa jornada até o destino final de tudo, sem contar as risadas que dávamos com os causos contado por ele das diversas situações que ocorrem diariamente na fazenda.

Inicio da Aventura (BR116)

Já na fazenda, após carregar as mochilas com algumas laranjas e trocar idéia com alguns conhecidos que encontramos por ali, partíamos a exatamente 09:00h para o primeiro alvo do dia, o Ciririca.

Fazenda da Bolinha

Como previsto pelo Elcio o céu estava limpando e anunciando o tempo perfeito que teríamos pela frente e em meras 5h de caminhada alcançaríamos o cume do velho ranzinza como é conhecido o Ciririca, ou não tão mais ranzinza como antigamente, fato comprovado depois da limpeza que fizeram na trilha até seu cume.

Placa de sinalização

Vista da subida ao Ciririca

Ciririca

O tempo era perfeito e tudo saia como planejado, a visão das montanhas na região era perfeita, inclusive o Marumby parecia um vulcão expelindo fumaça das entranhas.

Pico Paraná, Camelos e Tupipia visto do Ciririca.

Marumby expelindo fumaça

Realizado o registro no caderno e de pança cheia partíamos aos próximos objetivo, a descida do Ciririca não foi tão fácil como a subida, trilha úmida, escorregadia e algumas corda nada confiáveis, não demorou muito para eu pagar miojo com um tombo bonito de se ver. Perguntado se eu estava machucado, respondi que só o meu ego, com apenas alguns ralado e arranhões prosseguimos trilha abaixo e logo encontramos a bifurcação do segundo alvo do dia, o Agudo Lontra.

Agudos (Lontra-Cotia-Cuíca) visto do Ciririca

Inicio da descida do Ciririca aos Agudos

A subida do Lontra foi tranquila e não demorando muito, estávamos no cume apreciando o visual que tínhamos no Agudo da Cotia, uma visão fora do normal, só estando lá para descrever.

Agudo Lontra

Deixando a caixa de cume do Lontra e seu caderno assinado, partíamos ao terceiro objetivo do dia, analisamos o GPS saímos quebrando mato no peito, em pouco tempo estávamos na trilha em direção ao Agudo da Cotia confirmando assim a viabilidade da construção da primeira parte da InterAgudos.


Cume do Agudo Lontra

Trajeto aproximado da rota nova Agudo Lontra-Cotia

No inicio da subida ao Agudo da Cotia apreciávamos o por do Sol que dava espetáculo e as 19h estávamos em seu cume  curtindo o céu estrelado e uma Lua espetacular. Com os bivaques devidamente arrumados, fomos brincar com as lanternas, ou melhor dizendo, farolete de tão potente era a lanterna que o Elcio carregava. Foi sinalizar uma única vez que as respostas chegam de todos os cantos, Marumby, Tucum, Ciririca, PP.



Por do Sol (Agudo da Cotia)


Nascer do Sol (Agudo da Cotia)

Bivaque no Agudo da Cotia

Curitiba visto do Agudo da Cotia

Caderno de Registro Agudo da Cotia
Tendo uma noite bem descansada as 08h deixávamos o Cotia em direção ao Cuíca, após enfrentar diversas quiçaças e um mar de Caraguatás as 11:50h chegávamos no cume do Agudo Cuíca, finalizando com sucesso a InterAgudos.

Agudo da Cotia visto do trajeto ao Cuíca



Agudo Cuíca ao fundo

Mar de Caraguatá na subida ao Cuíca


Caderno de Registro (Agudo Cuíca)

 Tangará - Cotoxós e Arapongas visto do Agudo Cuíca


Vale em direção ao rio Xexelento visto do Agudo Cuíca 
Agora era tocar sentido Graciosa, a estratégia era simples, descer o vale sentido Marmota até o rio e ir até o Forquilha, simples assim, simples se não fosse os bambus, unha de gato, Caraguatá, cipó de tudo que é tipo que haviam na região, sem contar que de vez em quando no meio do caminho tinha todos estes obstáculos ao mesmo tempo para dificultar a chegada ao rio.
Chegando ao rio, ao invés do caminho melhorar, só piorava, era diversas árvores caída e gretas que não acabava mais, a dificuldade foi tão grande para percorrer que o rio foi apelidado de Rio Xexelento.
O alivio só veio ao encontrar o Rio Forquilha, ali até a Garganta 235 foi como um passeio no parque, visto pelo que havíamos passado anteriormente, não demoramos muito estávamos no acampamento Lima para mais uma pernoitada e com ideia de uma sobremesa para finalizar a travessia.

Registro na Garganta 235°

Acampamento Lima
Com mais uma noite de descanso perfeito, o dia amanhecia perfeito, e logo estávamos de pé na tentativa de mais uma investida inédita, tentaríamos uma rota nova até São João da Graciosa. Tentativa em vão, início da trilha que se mostrava como bosque logo virava em algo pior que o mar de Caraguatá do Cuíca, em 1h de caminhada havíamos percorrido apenas 1km pela Crista que levaria ao destino final. A quiçaça era tanta que resolvemos abortar a missão e completar o restante do percurso até o marco 22 na Graciosa.
Com muito sofrimento voltamos a trilha próximo ao acampamento Lima, após um breve descanso estávamos partindo embora, mas mal iniciamos a caminhada de retorno nos deparávamos com dois sujeitos no meio do nada, um deles carregava uma bateia, com uma ferramenta desse tipo nem é preciso descrever o que eles estavam a procura naquela região.
Após algum tempo conversando com os indivíduos nos despedíamos e tocaríamos embora, não demorava muito estávamos no Salto Mãe Catira apreciando aquela cachoeira e mais rápido ainda chegaríamos ao marco 22 dando de cara com o Desnucado, sempre recepcionando quem passa por ali.


Salto Mãe Catira

Desnucado

Estrada da Graciosa (Marco 22)

Estando na Graciosa agora a preocupação era conseguir lugar no ônibus para a volta a Curitiba, pois estando no quiosque do recanto Eng. Lacerda se reabastecendo com caldo de cana, um motorista ônibus fretado havia mencionado que Morretes estava entupida de turistas, daí a preocupação de conseguir lugar para a volta.
Saímos do recanto rapidamente até o rio do Corvo para um banho de gato, do contrário, mesmo com lugar no ônibus o motorista não deixaríamos entrar pela catinga da caminhada do dia todo, até brincaríamos que a catinga era tanta que as macumbas do rio do Corvo se afastariam de nós. De banho tomado seguiríamos até o bar do Bigode, lá aguardaríamos a chegada do ônibus com os dedos cruzado para haver vaga, do contrário teríamos que seguir até a BR116 e torcer por haver vaga nas linhas que vinham de Registro.

Após uma espera interminável apontava na estrada o bus, ao fazer a parada o motorista pedia para aguarda, pois iria conferir se restava algum lugar, e para nossa alegria e surpresa era anunciado que restavam duas vagas no ônibus, até parecia bruxaria a perfeição de como terminaríamos a travessia. Agora era relaxar no bus até Curitiba e planejar a pizzada do dia seguinte para comemorar o sucesso da 1ª InterAgudos.



Texto: Raffael Galápagos
Fotos: Elcio Douglas